Maria José Oliveira, série fotográfica "No princípio era a concha da mão", 1978.
"(...) Esta aparente contradição do fazer e refazer cíclico das práticas iniciáticas, que envolvem a repetição de gestos esquecidos e a devolução da sua atenção ao conhecimento secreto das coisas, está presente no ritual de “descascar a maçã”. Ele lembra uma instalação de Maria José Oliveira, composta por 24 fotografias [de Sérgio Pombo] pertencentes à Colecção de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, intitulada “No Princípio Era a Concha da Mão” (1978), em que a ancestralidade dos gestos da mão evoca a sua essencial capacidade para reter um elemento tão fugaz como a água. A mão e a ancestral aprendizagem da preparação dos alimentos para os levar à boca são condições básicas da sobrevivência humana, valorizada pela qualidade alquímica dos gestos. Gestos através dos quais é possível comunicar e sobreviver, como os de agarrar e reter, dar e receber, ou o da lavagem das mãos, que agregam significados e que ganharam hoje, no contexto da pandemia que atravessamos, um outro sentido de emergência. (...)" Paula Pinto, "Cuidar, Arquivo de Gestos", in Leonorana N.4, Porto 2020, pp.35-37.