Ânima: algumas notas e documentos, in Loreto 13 (Revista Literária da Associação Portuguesa de Escritores), Nº1, Janeiro 1978, pp.29-35.
"Ânima foi um espectáculo de animação de textos visuais, da Poesia Experimental Portuguesa, realizado por jovens actores quase na totalidade alunos do Conservatório de Lisboa. O espectáculo foi integrado no plano de colaboração cultural entre a APE e a SPA e foi apresentado na noite de 28/7/1977 na sala de teatro da SPA. Como documentação aqui se publica o seguinte: - Algumas fotos - O texto do programa escrito pelos actores brasileiros responsáveis pela criação do espectáculo. - A lista de colaboradores. - O cartaz. - Um texto de Seme Lufti sobre a criação experimental de ÂNIMA e suas vicissitudes. - A crítica de Carlos Porto, publicada no Diário de Lisboa, em 11 de Agosto de 1977." ÂNIMA - ANIMA? por Seme Lufti "Era uma noite de inverno, em Londres, em 74. Estávamos reunidos numa casa com amigos, malta nova. Lá conheci Silvestre PEstana - ah, actor? quero ver ouvir isto dito por um brasileiro, e passou-me às mãos uma antologia de poesia concreta portuguesa. Abro e dou com as letrinhas misturadas, em linha reta, a formarem desenhos geométricos - acho bonito isso, tem um rigor que gosto mas não entendo nada. Aliás, das vezes que vi poema concreto, foi em livro nas mães de outrem, e só de relance pensava devia ser chato topar com aquilo. (...) Levantei-me sentindo-me demasiado confiante - pudera! depois daquele show. Isso dá espectáculo - dá para fazer um teatro sensacional com isso. Vamos fazer? Vamos. National Poetry Centre - Londres. Arranjamos uma Portuguese Speaking malta, assim uns dois ou trÊs, também interessados em teatro. No dia anterior tínhamos ensaiado um pouco aquilo que íamos apresentar lá: uns poemas soltos, deste e daquele, sem ordem ou conexão, não interessa. Queríamos mostrar a descoberta. Os ingleses estavam numa de poesia só fonética, essa de explorar o aspecto, apenas vocal sonoro dos riscos, rabiscos, signos, garatujas e os desenhos de gotas de chuva em vidraça - clarto também. (...) e esse encontro semanal durou seis meses, com gente entrando e saindo do nosso grupo. Queríamos lá mesmo fazer o espectáculo, mas era difícil arranjar espaço, produção teatral sem conhecer ninguém numa terra estranha, isso além da dificuldade que parecia a pior: que elenco? (...) Um dia, muitos meses depois, o Ernesto Melo e Castro apareceu em Londres de repente. Eu nem o conhecia pessoalmente. Silvestre falou-me vamos lá mostrar a ele o que temos feito com os poemas. E lá mesmo no quarto do hotel demos-lhe precariamente com marcações e leitura uma ideia geral. Porreiro, façam um projecto que eu vou ver se consigo encaixá-lo nalgum esquema de produção lá em Lisboa. (...)."